O Avião Vermelho


Como se não existisse a música, perdia-me por lugares que eu conhecia e reconhecia entre os copos, na superfície prateada, o reflexo de um rosto desconhecido. Um avião vermelho, sem piloto e sem plano, levava à lugar nenhum, para bem longe de mim, minha guitarra de velhos tempos.

Como se não existisse a música, o azul do meu céu deixou de ser inspiração, metia muito gelo e sumo de limão. E quando enfim, terminava no fim da noite o dia, apagava todas as velas que cedo acendia e devolvia-me à escuridão.

Como se não existisse a música, fugia para a sala de aula no primeiro piso. Guardava nos cacifos os meus medos. Sentava-me diante do quadro negro e aprendia que estava só. E estudava como saltaria sobre o avião vermelho quando voltasse vazio dos lugares que não foi, levando consigo minha guitarra de longa data.

Como se não existisse a música, levava tiros, viajava em cometas e roubava beijos. Todos os dias parava diante do rio que corre sereno levando as vidas,  exceto a minha, porque apesar de tão próximo às suas margens, nunca tive a coragem de nele mergulhar. Preferia viajar em cometas, levar tiros e roubar beijos, mantendo o olhar fito no avião vermelho com minha antiga guitarra de cordas partidas.

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