Desamar


Quantas vezes terei de dizer-te que não és mar, és rio? Quantas mil vezes terei de repetir? Por que lhe é tão difícil entender e aceitar esta tua sina, esse édito dos deuses, tua mortificação? És rio, não és mar. Tu não és, nunca foste e nunca serás mar. Tu és rio, rio e ponto.

Não há em ti ondas como há no mar, nem praias como lá há, nem a Ana a te namorar, simplesmente porque és rio, não és mar.

Não sejas tão pretensioso, soberbo e arrogante pois não és mar, és rio, papalvamente rio. E mais uma vez hei de repetir e quantas vezes necessário for repetirei que tu não és mar, tu és rio, és rio, és rio, és rio.

Teus horizontes não tocam o céu, não guardam o sol e nem estrelas há em ti, porque as estrelas são do mar, não são do rio.

De um lado ao outro o tempo em ti nem dia torna-se, porque és rio, não és mar. No mar sucumbe o tempo, afogam-se os dias, meses, anos.

Rio sarcástico dessa tua discrepância, desse teu desvario rio. Rio porque és rio e queres ser mar. Faz-te como mar, mas nem morto serás, nem mar morto e tão pouco mar, e nem água-viva em ti se encontrará.

Ouça o que digo sussurrando no teu ouvido: tu não és mar, és rio. Tu és rio, és rio, és rio. E, sendo rio, não podes ser  mar. E sendo tu rio não posso te amar, porque o próprio amar está no mar assim como o ar que estou a respirar. Portanto, quando me for, volto ao mar, porque sou do mar, e tu és rio, nunca mar serás, nunca mais será, nunca me terás. Porque tu és rio, não és mar.

Comentários